Mesmo que fosse só utopia, cresce no Jardim de Palhais

Opinião

Alarga-se o conjunto de organizações, associações e movimentos que assumiram integrar uma vez mais iniciativas de solidariedade com o povo do Saara Ocidental, correspondendo a novo apelo (“Liberdade!”), bem recente, do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN), e Movimento Democrático de Mulheres (MDM).

A animação que tem decorrido no Jardim de Palhais, em Setúbal, promovida pelo São Domingos Futebol Clube ali instalado (curiosamente só três semanas mais novo que o PCP, pois foi fundado a 28 de Março de 1921), é fautora de um reencontro íntimo que faz reavivar memória sob o signo do internacionalismo proletário, valor indissociável da Revolução cujo Centenário ora comemoramos, a Revolução Socialista de Outubro (7 de Novembro 1917).
Memória que dispensa folhear agenda, por exemplo a da Exposição sobre o Saara Ocidental numa tarde ou noite de sábado, na Biblioteca Municipal Bento de Jesus Caraça, na Moita, com abertura da autêntica Ode de Luís Represas ao povo de Timor «Se outros calam, cantemos nós», aquando o massacre de Santa Cruz. Falaram Mohamed el Mami, jovem saarauí activista da Defesa dos Direitos Humanos perseguido e torturado pelas forças ocupantes marroquinas, e Adda Brahim, representante da Frente Polisário no nosso país, dando-se a conhecer que o Governo Português era o único da União Europeia a recusar receber este movimento patriótico – e logo mais razão houve para o reforço do repto, estando lá o Presidente da Câmara, de dar corpo a uma caravana rumo aos acampamentos de refugiados do Saara, já então anunciada para a Páscoa que se aproximava.
Mohamed el Mami, neste(s) percurso(s) – vindo de Espanha e de Beja – foi ainda ao Rosarinho. Tal teria a ver, porventura, com a visita do delegado da Autoridade Palestina em Portugal às Festas da Moita de Setembro de 2001, a convite do PCP, «a tempo de se deslocar ao Rosário que não conhecia, onde, por detrás da capela, se acercou de figueiras que lá estão e mesmo sem o cuidado de os lavar colheu figos para comer» (Jornal da Moita, provavelmente, no final de Março ou início de Abril de 2003, sobre a invasão e ocupação do Iraque).
«“E nada, nada de nada, se fala do Muro de Marrocos, que desde há 20 anos perpetua a ocupação marroquina do Saara Ocidental. Este muro, minado de ponta a ponta e de ponta a ponta vigiado por milhares de soldados, mede 60 vezes mais que o Muro de Berlim”, desabafa indignado em 2000 o escritor uruguaio Eduardo Galeano», segundo a edição Nº 70 da Revista Plenitude, citado por Francisco Colaço Pedro que complementa: «2700 km de paredes de terra, rocha e areia, fortificadas por bunkers, vedações e arame farpado» e semeadas de «vários milhões de minas.»
De entre os 43 portugueses a caminho do Saara foram então dirigentes da FENPROF. É natural, porque no Deserto da Morte estava como prova a aprovar a reconstrução de uma escola para mais de 600 crianças e, na medida do possível, a formação de professores. As Câmaras de Moita, Palmela e Seixal, entre mais algumas do país, sobretudo mais algumas do Alentejo, deliberaram a atribuição de donativos, contrariando Galeano na parafrase: a utopia não está lá no horizonte («A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos…», dizia ele no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005).
Terras portuguesas deram assim nome a salas de aula lá onde alguém fala do 25 de Abril. No Jardim de Palhais, identificada, cresce a oliveira que a 8 de Março do 2015 o MDM, com apoio das Autarquias Locais, ali plantou em homenagem às mulheres saarauis, de mãos dadas com Ahmed Fal, actual Delegado da Frente Polisário.

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