É hora de agir

Opinião
Francisco Cantanhede
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Recentemente foi muito comentada a violação de uma rapariga num autocarro para os lados do Porto. Foi no Porto, podia ter sido em Lisboa ou Coimbra, pois parece que tal violação se contextualizou na festa da queima das fitas. Uma jovem a ser abusada sexualmente perante uma plateia jovem que aplaude, incita, se diverte, e, claro, o vídeo foi devidamente divulgado.

De acordo com o que li em jornais, na queima das fitas houve tendas como «a tenda das tetas», em que qualquer rapariga tinha direito a bebidas à borla se mostrasse as mamas; outra tenda garantia igualmente bebidas gratuitas a mulheres que se beijassem, não um beijo natural, mas dos que fazem empolgar a assistência. Há vídeos onde se pode ver jovens rapazes, jovens raparigas a caírem de bêbedos, todos a apregoarem palavras, frases obscenas. Essas tendas, esses comportamentos seriam dignos das festas em honra do deus baco, as bacanais, «em que mulheres que participavam dessas festas corriam pelas ruas e pelos campos, à noite, seminuas». E, nos nossos tempos, tão longe da Roma Antiga ou talvez não, há sempre alguém, muito atento, pronto a gravar tais espetáculos e dá-los a conhecer ao mundo através da internet. Se todos sabemos que há uma certa etapa das nossas vidas propícia a abusos, a extravagâncias, não deixa de nos fazer refletir, com a alma a sangrar, ver alguns dos nossos jovens envolvidos em cenas só vistas, em tempos idos, em cabarés, em casas de prostituição. O que poderá levar estes jovens a ultrapassarem os limites da convivência social, os limites do respeito por si próprios, pelos seus progenitores? Obviamente um déficit de educação para a cidadania, um déficit de conhecimento/aprendizagem sobre a luta das mulheres pela sua emancipação, um déficit de conhecimento/aprendizagem dos direitos individuais, dos direitos humanos. Se analisarmos os currículos das diferentes disciplinas que os alunos frequentam desde o primeiro ciclo até terminarem o ensino obrigatório, quase nada, ou mesmo nada, consta sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, A Declaração dos Diretos da Criança, Adelaide Cabete, Alice Moderno, Carolina Beatriz Ângelo, Maria Veleda, Ana de Castro Osório,  «As Três Marias», Maria Lamas… Apenas nas aulas da disciplina de História são trabalhados, de forma muito resumida, alguns destes conteúdos, e se acrescentarmos que a carga horária da referida disciplina é, em muitas escolas, de noventa minutos semanais, para cumprir um programa que foi elaborado para três tempos letivos de cinquenta minutos semanais, estará aqui parte da explicação para comportamentos tão deploráveis. Sim, parte, pois a restante responsabilidade cabe aos pais e à comunicação social. Os pais, porque , muitas vezes, se alheiam da educação dos seus filhos, ou apenas lhes  exigem,  e ao sistema educativo, boas notas, nada de bons comportamentos, quantas vezes os seus comportamentos são tão deploráveis como os que os filhos demonstram; é bom recordar que as crianças fazem muitas das suas aprendizagens através da imitação e é em casa que elas fazem muitas das  aprendizagens que irão marcar os seus comportamentos; a comunicação social , especialmente a televisão,  porque valoriza programas vazios de conteúdo, programas a raiar o pornográfico, que enaltecem o voyeurismo, que embrutecem,  que deseducam os que têm alguma educação.

O Senhor Presidente da República, o Senhor Primeiro Ministro, o Senhor Ministro da Educação, os professores, os pais, a sociedade não podem continuar a assobiar para o lado, é  hora de agir: a escola tem de ser um espaço onde as crianças e os jovens possam  sentir prazer de aprender, a educação para a cidadania deve ser tão valorizada como a Língua Materna ou a Matemática,  o respeito pelo outro e por nós próprios, pela natureza, a casa da humanidade, o altruísmo, o amor ao próximo são valores que devem ser promovidos , pois estão à beira de constarem apenas em dicionários e enciclopédias.

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