A Capela de Santo António – As Obras e a História

Opinião

As primeiras referências históricas à antiga Ermida de Santo António remontam ao ano de 1564, data das visitações feitas pela Ordem de S. Tiago à então vila de Aldeia Galega do Ribatejo, e existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Nestas visitações faz-se menção de que esta mesma ermida pertencia à quinta de Duarte Rodrigues Pimentel.

        Numa lápide setecentista, existente à entrada da mesma, é-nos dada informação de quem a construiu: “Esta Igreja mandou edificar Duarte Roiz Pimentel fidalgo da Caza de el Rey D. João o 3º…”.

E era, certamente, já habitada, em 1553, por D. Duarte Rodrigues Pimentel, uma vez que esse é o ano do nascimento de um seu filho, mais tarde conhecido por Fr. João da Madre de Deus – figura a merecer estudo mais aprofundado e um dos poucos montijenses a ser mencionado nas mais famosas bibliografias nacionais, a “Bibliotheca Lusitana”, de Diogo Barbosa Machado e o “Diccionário Bibliographico”, de Inocêncio Francisco da Silva, em razão das suas 3 obras publicadas, ainda em vida.

Mas voltemos à Quinta de S. António e à sua Ermida….

Naquela que é uma das primeiras descrições sobre a antiga Aldeia Galega, o Padre António Carvalho da Costa refere-se, no ano de 1712, e depois de falar na vila, à ermida e quinta de S. António. A ermida, nas suas palavras, encontrava-se já nos arrabaldes da vila, para os lados do Poente. Escreve, sobre a quinta de S. António: “A Quinta de Francisco de Novaes Casado, que tem boas casas, laranjal da China, & outras frutas, com muyta fazenda livre, marinhas, bons pinhais, & hum bom moinho de seis engenhos.” (Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famozo Reyno de Portugal…”, tomo III, Lisboa, Officina Real Deslandesiana, 1712, cap. VII, p.325).

A consulta de uma das mais importantes fontes documentais para a nossa História local, as chamadas “Memórias Paroquiais” de 1758, não nos diz muito mais. Na inexistência das habituais respostas dos párocos das paróquias deste concelho, na altura, a do Divino Espirito Santo de Aldeia Galega e a de Sarilhos Grandes, ficamos sem saber das consequências do terramoto de 1755, nesta vila, e concretamente na Igreja de S. António. A já referida inscrição setecentista, existente à entrada da Capela, não nos permite deduzir qualquer dano provocado pelo terramoto, apenas que teve obras no ano de 1789.

Na falta de outros documentos escritos, recorremos à tradição oral e nela consta um milagre associado à ermida de S. António e ao terramoto de 1755. Do que se passou no dia 1 de Novembro de 1755, nesta antiga vila de Aldeia Galega, conta-se assim: nesse dia, a população, apavorada com o terramoto, pediu à Misericórdia para organizar uma procissão; ela veio a realizar-se e quando a imagem do Senhor Jesus da Misericórdia passava junto à Ermida de S. António, as águas, que até então alagavam tudo ao redor, começaram a recuar e a procissão pôde avançar até ao Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição (ao fundo da Av. dos Pescadores e hoje inexistente).

A partir de então, e em memória destes acontecimentos, a Mesa da Misericórdia determinou que se organizasse, todos os anos e nesse mesmo dia, uma procissão de acção de graças, entre a Igreja da Misericórdia e o antigo Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, com passagem pela ermida de S. António. Sabemos, pela consulta das actas da Mesa da Misericórdia (existentes no Arquivo Municipal do Montijo), que a procissão continuou a fazer-se até 1908, data em que foi eleita a primeira Mesa da Misericórdia republicana de Aldeia Galega, que acabou com esta prática secular – ainda que por pouco tempo, esta procissão foi retomada, no ano de 1953, pelo Padre Gomes Pólvora, depois de concluídas as obras, de meados do século passado, num projecto do grande arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, datado de 1919, e que nos deu a configuração actual do conjunto habitacional e capela.

Era proprietário o comandante António Santos Fernandes, e, nessa qualidade, foi o autor dos pedidos de licenciamento enviados à Câmara Municipal do Montijo para as obras do conjunto habitacional, no ano de 1944 e, em 1947, para a obra de remodelação da ermida (Arquivo Municipal do Montijo/Câmara Municipal, Processos de Obras Particulares, A/023/1944 e A/016/1947).

70 anos depois deste licenciamento, a capela de S. António é alvo de novas obras de remodelação – o restauro dos vitrais de Ricardo Leone e dos azulejos do século XVIII são algumas delas. Estou particularmente curioso com o trabalho que nos irá apresentar a artista plástica montijense, Fernanda Fragateiro – o património, esse, estou certo, e tratando-se de um imóvel classificado de Interesse Público, desde 19/2/2002, será bem acautelado e já foi, certamente, alvo de licença prévia da Direcção-Geral do Património Cultural.

Antes ainda, refira-se que todo este conjunto habitacional, hoje conhecido por Quinta do Pátio de Água e onde, actualmente, está instalada a União de Freguesias de Montijo e Afonsoeiro, teve importantes obras de recuperação, tendo sido a inauguração das mesmas incluída no programa das comemorações do Dia da Cidade de 2009, logo depois de um outro momento alto proporcionado pelo ilustríssimo historiador Joaquim Veríssimo Serrão, com uma conferência sobre “A Cidade do Montijo na História de Portugal”.

Que as obras actualmente em curso na Capela de S. António possam seguir o mesmo lema, e que a sua inauguração seja, também, um pretexto para o aprofundamento e a divulgação da nossa História Local.

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