Jovem do Pinhal Novo que está a dar a volta ao mundo já leva um mês de viagem

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Continua a jornada pelo globo. Pedro Pinela encontra-se ainda na Grécia, de onde nos envia mais um interessante relato (na primeira pessoa) de noites passadas ao abrigo da hospitalidade da população local. Até massagens de um sírio recebeu

“Neste último dia 14, completou-se um mês desde que saí de casa. Estou ainda na Grécia porque o passaporte, tal como já esperava, exige um renhido jogo de paciência e uma discussão acesa com os serviços de correspondência. Fosse como seja, entretanto, cheguei a Salónica no dia 2, através da boleia de Napoléon.

Estava doente, triste por quem deixava para trás e exausto pelas raras horas de sono dos dias anteriores. Sem planos de onde dormir, a primeira noite passei-a num parque infantil, numa daquelas casinhas para os miúdos brincarem que, à falta de quatro paredes, tinha três. Um dos meus pés só descongelou uma meia dúzia de horas depois da alvorada. Então, nesse segundo dia, abordo as pessoas mais bizarramente vestidas que a vista me permitia alcançar, dizendo: “Desculpem, rapazes, mas o frio bate a vergonha aos pontos! Têm um espaço em vossa casa onde possa dormir?”

As “três paredes” no parque infantil onde Pedro Pinela pernoitou

Nessa noite, albergado em casa da ausente irmã do grego Nikias, sou introduzido às massagens do sírio Çakbîn, por quem o grego se fazia acompanhar. Estas sessões fisioterapêuticas eram acompanhadas de sonoros arrotos que Çakbîn justificava com o facto de serem fenómenos cuja repressão é prejudicial à expressão do corpo humano. Além disto, a terminar o ritual, puxava ele da sua bolsa de druidamunida de frascos com óleos naturais (eucalipto, menta japonesa, lima e alecrim) e palo santo, uma madeira aromática fumegante que dizia limpar os campos electromagnéticos que todos possuímos.

Estes dois conheceram-se na Alemanha há três ou quatro anos e são do estereótipo devoto às questões da espiritualidade, natureza e interioridade do ser. No total, concederam-me três noites na sua companhia até que os ecos de Ioannina se fizeram ouvir, curiosamente por meio de um rapaz de nome Apos Tolis.

Agios Pavlos, igreja ortodoxa

Foi por esta altura que comecei a entender as pessoas quase como se de lianas se tratassem. Saltando de uma para outra, fui conseguindo sempre onde dormir, sem pagar. Do Apos Tolis, para casa de Pelegia, da sua casa para a de Nefeli, daí para a de Yannis e de lá para a Turquia irei, enfim, onde tudo começará de novo com novas gentes, cultura e sítios, sem casas, rumo certo ou expectativas. Cheio de histórias já, soltas por lhes ter perdido conta e/ou ordem cronológica.”

Pedro Pinela

Torre Branca, principal símbolo da cidade. Também conhecida como Torre de Sangue ou Torre Vermelha, pois foi utilizada como prisão no passado
Outro do património captado pela objectiva de Pedro Pinela na comunidade grega de Salónica: o templo romano denominado Rotunda, conta cerca de 1 700 anos

 

 

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