Caminhando nos Continentes

Opinião

Ao minuto de silêncio de homenagem a Fidel de Castro na noite de 26 de Novembro, em Setúbal, aquando um jantar-convívio de confraternização havia algum tempo programado, logo se seguiram mais de 30 punhos erguidos e cerrados e a palavra de ordem: “A luta continua, hasta la vitória sempre!”.

Após as intervenções de Augusto Fidalgo, Presidente da Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC), e de Filipe Narciso, Presidente do Núcleo local, ao manusear de acordes e à voz deste jovem trovador setubalense juntou-se o Dr. Manuel Guerra Henriques, cantador de Coimbra, e uniram-se “Guantanamera”, no meio de tantas outras, jamais poderia deixar de ser assim, a terminar, e “Grândola, Vila Morena”.

Mas porque o cantador é advogado, logo ali foi tema, entre mesas, por estarem presentes membros da Associação Conquistas da Revolução (ACR), a condenação da suspensão da actividade de organizações e movimentos sociais sob a acusação por parte do Governo de Erodan de pertenceram a uma “rede terrorista”. A acuidade do tema devia-se a que dias antes, a 10, 11 e 12, assinalara-se o 50º Aniversário dos Pactos Internacionais de Defesa dos Direitos Humanos numa Conferência organizada em Lisboa por iniciativa da Associação Portuguesa de Juristas Democratas (APJD) na qual tomou a palavra a Associação de Advogados Progressistas da Turquia, cuja Delegação, mal regressada do Portugal de Abril, foi feita prisioneira. De imediato a ACR, outra participante, engrossou o coro da expressão de solidariedade para com todo o Povo da Turquia, orgulhosa ao mesmo tempo por a Associação turca resistir e ter ocupado ela as suas sedes e proclamar: “Não fechamos as portas, são portas abertas da Liberdade!”. Também se lhes seguiu as masmorras (segue-se a razão deste “Também”).

Em plena placa central – como sempre repleta de fregueses e visitantes – do Mercado do Livramento, em Setúbal, teve lugar na manhã da sexta, 16, em final de ano, a inauguração de uma Exposição de fotografias da sede e dos calabouços da PIDE, naquela cidade, iniciativa da Delegação Concelhia da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) com apoio da Câmara Municipal e das Juntas da União de Freguesias de Setúbal e da de São Sebastião.

O edifício, recentemente recuperado para fins do ensino particular, situa-se no Bairro Salgado, fazendo esquina entre a Rua Garcia Perez e a Rua Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Dois testemunhos escritos evocam o 1º de Maio de 1973, um de Vítor Zacarias, o único sobrevivente do conjunto dos quatro encarcerados na manhã daquele Dia Internacional de luta, conjuntamente com “Germano Madeira, o Dimas e o Pombeiro”, segundo lembra igualmente Olga Madeira, filha de Germano.

Pedro Soares, o autor das fotografias e membro da Direcção da Delegação, em bréve alocução afirmou que “continuamos sem desânimo a aproveitar todas as oportunidades para denunciar os crimes e os horrores ocorridos durante 48 anos de fascismo em Portugal”. E neste 2017 a Exposição será itinerante.

Neste “neste” está pois o “aqui chegámos”. Vamos continuar a ter uma onda, a das Comemorações do Centenário da Revolução Socialista de Outubro, com o pico em Novembro, mas com ênfase em particular dada pelo PCP (que a 2, 3 e 4 de Dezembro levou a cabo em Almada o seu XX Congresso) ao 9 de Maio, assinalando mais um aniversário da derrota do nazi-fascismo rendido ao Exército Vermelho, em Praga. O desígnio e projecto que atravessam já três séculos, repetindo-nos como sempre, o da verdade, da esperança e do futuro, faz marca: sem darmos por isso quase, caminhamos nos Continentes.

 

 

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