Viajante pinhalnovense, de Brindisi (Itália) a Igoumenitsa (Grécia)

Sociedade

Pedro Pinela conta como viajou, de Itália para a Grécia. De barco e à boleia, com muitas histórias

 

Brindisi foi a última cidade d’Itália. Lá comprei os mantimentos d’uma viagem que seria d’oito horas, num navio enorme que, nem de propósito, num fund’azul grego inscrevia um “G” alvo. De Grimaldi Lines. Era às 21 horas a partida e bem que fiz ao perguntar, aquando da compra do bilhete (37 euros), qual o horário em que já seria aceite a bordo. Com duas horas d’antecedência.


Flutuando à margem do Mediterrâneo, parado, já plena a embarcação, com, nada mais nada menos que quatro centenas de búlgaros. Não que represente toda a nacionalidade, mas todos ciganos, no vulgo português. Mantas intermináveis, sacos pretos, vozes altas, miúdos a chorar e todos os álbuns de Emir Kusturica and the No Smoking Orchestra e Gipsy Kings a tocar em telemóveis mais caros que as suas indumentárias contrafeitas. Mentira que eram só estes dois grupos musicais, mas, dentro do género, são dos mais conhecidos. Agora, diga-se de passagem, que um português no meio d’uma cultura tão distinta, a que habituados só estamos a pequenas comunidades, vai todo borrado de medo pelo preconceito. Mas foi uma viagem tranquila, final de contas.

 

Já em Igoumenitsa, Grécia, o jogo de paciência que é estar de polegar estendido para a estrada durou quatro horas. Compensadas nuns meros 30 minutos de viagem até Ioannina com o Tsekos Theodoros. Montanhas acima, abaixo e atravessadas. Uma dezena de túneis.

Dava-se início ao improviso, chegado. Ao invés d’Itália, onde o plano estava semi-delineado, aqui não há uma porta de casa aberta. No dia em que chego corro as margens do lago que cá existe, negócio a negócio, e sempre que encontrei a ilha que lhe existe no meio, ainda não há emprego. Num hotel dizem-me para lá voltar dali a três dias.

Hoje é o dia em que volto, esperançado de ver os 20 euros por noite, que até aqui gastei numa pensão, retornados. O dia em que a minha terceira lição de grego volta a ter lugar no bar de que já me fiz habitual, sob tutoria de Alexandros Dimos. Talvez hoje entranhe mais o alfabeto e me solte mais do abecedário. Porque se “abecedário” começa pelo a, b, c, d – “alfabeto” arranca com o alfa e o beta, que antecedem um ró curioso de encontrar novamente em “abecedáRio”.

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