Viajante Pedro Pinela já esteve em Itália

Sociedade

Na primeira crónica de viagem, enviada de Itália, Jovem pinhalnovense que está a dar a volta ao mundo, explica porque não começou a viagem pela esquerda. Seria sinistro

 

Em italiano, “esquerda” diz-se e escreve-se “sinistra”. Pelo que, a partir de agora, esta será a justificação que darei a quem me perguntar porque é que escolhi a direita para iniciar a minha viagem – comecei pelo este, pelo leste, o oriente, o levante ou o nascente porque pelo outro lado seria sinistro.

Na véspera do barco que hei-de apanhar para a Grécia, contei cinco dias de Itália e quatro cidades: Roma, Nápoles e Lecce, por um dia cada uma, dois em Bari.

Agora, peço-me para espremer a memória numa gota, que é esta primeira crónica, tentando responder ao que gostariam de saber, sem, todavia, ouvir perguntas.

Cheguei ao aeroporto de Ciampino, nos subúrbios de Roma, às duas da tarde. Uma hora depois estava em Tiburtina, no centro, através de uma boleia que um professor primário, chamado Gabriel, me deu num Fiat 500 encarnado com o decalque nas portas da palavra  “Enjoy”. Achei irónico.

Tiburtina é um sítio feio, onde o que há para ver são autocarros e comboios. Decidi lá ir porque, no dia seguinte, ia ali apanhar o autocarro para Nápoles e queria reconhecer a zona.

Daí fui de metro até ao Coliseu e não consegui imaginar gladiadores ensanguentados. Em vez disso, um ambiente inóspito de tensão entre militares fardados com camuflados e imigrantes ilegais apetrechados com todo o tipo de quinquilharia para venda. Mais turistas a passar nos seus intervalos.

Segui por onde me pareceu mais turístico, a pensar pelo caminho que as cores do clube local, a AS Roma, fazem todo o sentido, são muito ilustrativas dos tons predominantes da cidade.

Uma certeza de fundo, porém, atormentava-me – não tinha onde dormir e não pagaria para tal. Subestimava os poderes de uma viagem errante: o sol acaba de se pôr e dou de caras com a Patrícia, minha colega da faculdade, que me dá guarida. A gente que a acompanhava oferece-me o jantar, composto por pasta (que em Itália, para além de bem cozinhada, existe numa quantidade de variedades enorme) e moscato (um vinho licoroso parecido ao moscatel).

Depois, Nápoles, uma cidade intimidante por tudo, pelo trânsito caótico, pela gente, pela densidade urbana, até pelo castelo que se eleva a pique no meio da cidade. Pouco guardei do sítio, para além de Solomon. Havia chegado à Sicília em 2014, num barco com 38 pessoas a bordo, que navegou durante quase 4 dias. Os pais e um dos seus irmãos foram assassinados, o outro perdeu-lhe o rasto. Embarcou na Líbia em troca de muito dinheiro e o seu plano era juntar-se a um amigo em Bolonha. Espero que tenha tido sorte.

Os últimos dias foram em casa do Ernesto, em Cellamare, nome composto pelas palavras “cella” e “amare”, ou seja, o amor pelo aprisionamento ou a prisão do amor. Nome paradoxal duma aldeia a 10 km de Bari.

É a partir deste anfitrião que sou introduzido também a Lecce, a maior cidade do “salto alto” da Itália que é semelhante a Bari no que inspira. Distingo-as por Lecce ter mais cultura e Bari ser mais familiar. Lecce tem igrejas e catedrais medievais e barrocas, teatros do estilo romano antigo, um castelo e um anfiteatro rodeado por edifícios de desenho fascista – essa mescla complexifica a cidade tornando mais rica. Bari não deixa de ter a sua cultura, com uma igreja simultaneamente católica e ortodoxa, um castelo também, três teatros e várias faculdades.

“Fazendo a pintura caricata de um italiano comum, isto é, exagerando e/ou generalizando, seria alguém: com uma boca minúscula, na medida em que é raro falarem inglês, de sobrancelhas altas, pela desconfiança com que são abordados, os olhos vagos pelo desinteresse relativamente ao outro e um nariz comprido demais para aquilo que são as suas virtudes.”

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