O adeus de Setúbal a Carlos Rodrigues

Opinião

Setúbal despediu-se de um dos seus filhos mais ilustres da contemporaneidade, o popular Manuel Bola, como carinhosamente era conhecido na cidade Carlos Rodrigues, ator de créditos confirmados nos palcos setubalenses e muito para além deles.

Quem queria vê-lo era ir à Praça (Mercado do Livramento), onde se deslocava não sei se diariamente, mas com muita frequência, tenho a certeza. De boina à espanhola, amparado à sua bengala, passo curto, ar bonachão, lá ia de banca em banca, metendo-se com este, ouvindo aquela, respondendo àquele. A popularidade e o carinho de que gozava na cidade, ressaltavam nas saudações efusivas que lhe dirigiam vendedores e sadinos em geral:

– É Manel Bola! Tás bom, pá?

Parava, conversava com quem quer que fosse, chalaceava, sempre com um largo e franco sorriso nos lábios, marca da sua personalidade que nos encantava.

Aqui há uns meses, antes da intervenção cirúrgica a que foi submetido, encontrei-o, na Praça, e meti-me com ele:

– Deixe-me que lhe diga uma coisa.

Fitou o estranho com surpresa, à espera, o mesmo sorriso de simpatia, e ouviu:

– Olho para o senhor e vejo o seu avô Fernando. Até a voz, a aparência de boa pessoa e a maneira de sorrir são as dele.

Ficou a olhar-me como se não soubesse das parecenças. Notava-se já nele alguma debilitação, mas foi com vivacidade que reagiu:

– Você conheceu o meu avô Fernando?

– O seu avô e a sua avó Virgínia! – E expliquei: – Eu sou de Aires, os seus avós eram duas pessoas muito estimadas na aldeia, e eu tenho uma muito grata memória deles.

E ele, o olhar vago a perscrutar os arquivos da memória, um sorriso de grande satisfação, e numa inflexão de voz que dizia saudade, recordou:

– O meu avô Fernando e a minha avó Virgínia…

Na curta conversa que tivemos, lembrei que a Quinta da Glória, onde os seus avós foram rendeiros durante décadas, era a única onde nós, os miúdos de Aires, podíamos colher uma peça de fruta sem recearmos queixas aos nossos pais, e aquela em que tínhamos sempre certo um farto «pão por Deus», no dia de todos os santos. Ouviu tudo com um brilho nos olhos e o tal sorriso nos lábios.

Ainda o encontrei e saudei, na Praça, mais duas ou três vezes. Sentimental como sou, cada vez que lá for vê-lo-ei no seu passinho e amparado na sua bengala, boina à espanhola na cabeça, a distribuir, na voz encorpada que herdou do avô paterno, dúzias e dúzias de saudações, muita pilhéria e muito riso.

Os meus agradecimentos pela sua permanente boa-disposição e por tudo quanto deu à cidade e à cultura do país, Manel Bola. Sendo possível, faça-me um grande favor: dê, por mim, um abraço apertado ao seu avô Fernando e outro à sua avó Virgínia. Repouse em paz.

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