Rui Canas Gaspar reaviva memória colectiva sobre Tróia

LIVRO. Lançamento de "Tróia - Um Tesouro por Descobrir" decorreu no Bowling de Setúbal, na Doca dos Pescadores
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Rui Canas Gaspar, 68 anos, explica a história da Península de Tróia desde a ocupação romana até aos dias de hoje naquele que é já o seu décimo livro, à venda nas principais livrarias da cidade

 

“Tróia – Um Tesouro por Descobrir” é o mais recente trabalho de investigação de Rui Canas Gaspar, conhecedor do sotaque do bairro de Troino, onde nasceu, e que continua a ouvir quando estende a toalha na praia do lado de lá. No quinto livro que escreve sobre a região de Setúbal, ao longo de 200 páginas e mais de uma centena de registos fotográficos e documentais, dá largas à escrita e mostra como a península foi sendo tomada pelos povos ao longo da história, pelo povo setubalense e pelos projectos imobiliários mais recentes, como o da Torralta, em que trabalhou. Afirmando que “Setúbal e Tróia nunca podem dissociar-se”, apresenta o livro como “único”.

 

DIÁRIO DA REGIÃO: “Tróia – Um Tesouro por Descobrir”. Que livro é este?

Rui Canas Gaspar: É um livro sobre a história de Tróia desde a ocupação romana até à actualidade, como a conhecemos hoje. Tróia como esta restinga de areia branca e fina como há poucas, pelo menos nas nossas bandas. E como a história é feita de histórias, aparecem algumas pelo meio, contadas ao longo de duas dezenas de temas.

 

Que “tesouros” é que ainda estão por descobrir em Tróia?

Quando digo que Tróia é um “tesouro por descobrir”, aponto para duas vertentes. A vertente cultural de Tróia além da experiência balnear, nomeadamente todas as valências e atractivos culturais, como o roteiro das ruínas romanas, que são o maior complexo de salga de peixe do mundo, um importante ponto de atracção turística e estão muito valorizadas. Aponto também para o tesouro do galeão castelhano que naufragou em Tróia, entre a Ponta do Adoxe e a Comporta, quando não conseguiu passar a barra por causa de um vendaval. O galeão estava carregado de ouro e prata, que pertenciam ao rei de Espanha. Foi recuperada uma parte desse tesouro e outra não. É um episódio que está amplamente documentado e que eu conto baseado em factos reais. A última parte do livro é talvez a mais interessante, o que tem a ver mais com o título do livro.

 

Como foi o processo de elaboração do livro?

Na elaboração do livro recorri à documentação história que existe sobre o assunto, a relatos de pessoas que tiveram vivências do outro lado do rio e a outras fontes. Eu próprio tenho alguma experiência sobre as coisas de Tróia, uma vez que quando era menino acampei em Tróia como os pescadores – o meu pai era pescador – e depois, na adolescência, como escuteiro, nas dunas, daí conhecer a experiência do campismo selvagem. Mais tarde, nos anos 70, participei como técnico da empresa construtora da Torralta, a AC – Arquitectura e Construção, na construção daquela que seria a cidade turística idealizada em Tróia, com 70 mil camas. Mais tarde, como toda a gente aqui em Setúbal, estive nas chamadas “bichas” para apanhar o barco para Tróia e aí tive a vivência de Tróia cheia de gente, nos anos 80 e 90. Nos últimos tempos, foi a experiência de ver a implosão das duas torres que sobraram da Torralta, que não se enquadravam no projecto do Tróia Resort, da SONAE e Amorim Turismo. Tenho ido a Tróia esporadicamente, e ao contrário do que algumas pessoas da minha idade dizem, eu gosto de Tróia como ela está agora.

 

Mas muitos setubalenses afirmam que hoje Tróia já não é do povo…

Mas qual povo? Do povo que tinha dinheiro para pagar o bilhete para Tróia, porque muita gente não tinha. Houve uma altura em que existiram dois tipos de transporte para Tróia: os hovercrafts, que eram três vezes mais caros e faziam o trajecto em três minutos, e os barcos convencionais, cujas viagens custavam um terço do valor dos outros. Em relação aos salários que a generalidade da população auferia, os bilhetes também não eram baratos. Isso é verificável com base em cópias e registos dos bilhetes dos transportes da época. As pessoas que iam para Tróia eram privilegiadas em relação ao resto da população, e muitas outras iam porque tinham familiares com barcos de pesca que os levavam.

 

Tróia está verdadeiramente diferente…

Está, e eu acredito piamente que muitas pessoas da minha idade se recordem de Tróia com nostalgia. Mas eu não sou saudosista, antes realista. E também não sou elitista. Felizmente tenho capacidade económica para ir a Tróia quando quiser, e quando vou, vou como um cidadão qualquer e não deixo de ouvir a fala típica de Troino, portanto muitos setubalenses continuam a ir para Tróia.

 

Voltando ao livro, como surgiu a sua vocação para contar histórias?

A minha vocação para contar histórias nasceu com a minha vivência nos escuteiros, onde estive grande parte da minha vida. Entrei aos 13 anos e fui chefe de escuteiros durante muito tempo. Como sempre lidei com miúdos e adolescentes, e contávamos histórias à volta da fogueira, a minha maneira de ser e de estar é a contar e explicar. É isso que procuro passar nos meus livros: contar histórias da nossa terra que enriqueçam o conhecimento dos leitores.

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